O padre Robson de Oliveira Pereira pediu afastamento de suas funções do Santuário Basílica do Divino Pai Eterno e da Associação Filhos do Pai Eterno (Afipe), após investigação de desvio de R$ 120 milhões de doações de fiéis em Trindade, na Região Metropolitana de Goiânia. A informação foi divulgada, na tarde desta sexta-feira (21), por meio de um documento assinado por Dom Washington Cruz, arcebispo da Arquidiocese de Goiânia.

Padre Robson, de 46 anos, é fundador e ocupava a presidência da Afipe. Até então, ele também era o reitor do Santuário Basílica do Divino Pai Eterno. Natural de Trindade, o religioso é uma figura presente na cena católica e tem um programa de TV em que promove momentos de reflexão com base em trechos da Bíblia e experiências pessoais, além de conselhos àqueles que pedem orientação religiosa.

Batizada de Vendilhões, a operação que apura as irregularidades cumpriu, nesta sexta-feira (21), 16 mandados de busca e apreensão, inclusive, em imóveis ligados ao padre. O Ministério Público de Goiás (MP-GO) investiga se o dinheiro pode ter sido usado para compras de bens luxuosos, entre eles, uma fazenda de R$ 6 milhões em Abadiânia, no leste de Goiás, e uma casa de praia, no valor de R$ 3 milhões, em Guarajuba (BA).

Segundo a arquidiocese, a Igreja Católica foi “surpreendida” com a ação do Poder Judiciário e do MP, mas aceita “com humildade” os atos praticados pela autoridade judiciária. A nota disse ainda que está, junto à Província dos Missionários Redentoristas de Goiás, “aberta para apurar com transparência quaisquer denúncias em desfavor de seus membros”.

Ainda de acordo com a arquidiocese, o padre pediu afastamento “até que se esclareçam todos os fatos”. As funções do padre Robson serão assumidas, de forma interina, pelo padre André Ricardo de Melo, provincial dos Missionários Redentoristas de Goiás.

Em uma coletiva de imprensa, na tarde desta sexta-feira, o advogado Pedro Paulo Medeiros, que faz a defesa do padre, disse que o religioso está “chateado com acusações, mas tranquilo”. Segundo o cliente lhe disse, “aquele que anda com verdade não tem o que temer com acusações”. Ainda de acordo com a defesa, a Afipe e o padre estão à disposição do Ministério Público.

A operação realizada nesta sexta-feira apura irregularidades na Afipe, entidade responsável pelo Santuário Basílica de Trindade. São investigados os seguintes crimes:

A juíza Placidina Pires, que expediu os mandados de busca e apreensão, também determinou o bloqueio de R$ 60 milhões de bens da associação. O MP-GO chegou a pedir a prisão de padre Robson, mas a magistrada negou.

De acordo com a denúncia, a rede de desvio de dinheiro da Afipe também envolve empresas de comunicação, postos de combustíveis e até o vice-prefeito de Trindade Gleysson Cabriny de Almeida (PSDB), conforme denúncia do Ministério.

Segundo a denúncia do Ministério Público, Robson criou “várias associações com nome de fantasia Afipe ou similar, com a mesma finalidade, endereço e nome”. Conforme o MP, as filiadas da Afipe também são voltadas para a “evangelização por meio da TV, para obras sociais e para a construção da Nova e Definitiva Casa do Pai Eterno, em Trindade” e que, para esse fim, recebem doações de fiéis de todo o Brasil.

Entre anos de 2016 e 2018, os donativos atingiram um montante de mais R$ 746 milhões. de acordo com o órgão. A investigação apura se, em três anos, a Afipe desviou cerca de R$ 120 milhões para empresas e pessoas investigadas.

Segundo o secretário de Segurança Pública, Rodney Miranda, o volume de dinheiro movimentado “pressupõe ilegalidade”. Em uma década, os investigadores calculam uma movimentação de quase R$ 2 bilhões nas contas bancárias.

“O volume de dinheiro pressupõe alguma ilegalidade ou irregularidade. Mesmo se o Brasil todo resolvesse ser bondoso e caridoso com a construção dessa nova basílica e fizesse doações, dificilmente, chegaríamos a esses bilhões que estão sendo investigados. ”, disse.

De acordo com o MP, a investigação começou há dois anos, por conta de outra investigação vinculada ao padre Robson. Conforme o apurado, na ocasião, o religioso foi extorquido durante dois meses, em março e abril de 2017, e “utilizou indevidamente recursos provenientes de contas das associações que preside”.

Um hacker chegou a ser condenado por extorquir R$ 2 milhões do padre, ameaçando revelar um suposto caso amoroso do religioso. Porém, a polícia apontou que as mensagens usadas para extorquir o padre eram falsas.

De acordo com as investigações, o dinheiro foi repassado por transferências bancárias e entregas em espécie. Os pagamentos eram feitos em quantias de R$ 50 mil a R$ 700 mil. Em alguns casos, o valor era deixado dentro de um carro na porta de um condomínio ou no estacionamento de um shopping da capital. Uma das entregas foi supervisionada pela Polícia Civil a fim de identificar e localizar todos os criminosos.

À época, a Afipe disse que “não teve nenhum prejuízo financeiro e todo o valor voltou para a instituição”. A decisão que autorizou os mandados, porém, destaca que dos R$ 2,9 milhões retirados da Afipe para fazer o pagamento, quase a metade – R$ 1,2 milhão – não foi recuperado, ocasionando prejuízo à entidade.

Consta ainda na decisão que, foi a partir desses pagamentos, verificados durante investigação policial, que chegaram a uma “rede de envolvidos muito maior, com apropriações e negociações envolvendo os bens da associação”.

Também advogado de defesa, Klaus Marques explicou que foi preciso criar diversas filiais da Associação Filhos do Pai Eterno para ajudar a manter os lucros necessários para chegar a uma evangelização “maior”. Ele reforçou que não há ilegalidade nos procedimentos.

“Para chegar nessa evangelização do maior e do melhor modo possível, precisávamos de investimento, e esses investimentos nunca foram só bancários, muitos foram em atividades. Quando a Afipe adquire uma fazenda, por exemplo, para criar gado, tira dali lucro para manter as suas atividades, o que é completamente lícito e dentro do que o seu estatuto determina e autoriza, ela tem que abrir uma filial e tem um CNPJ diferente”, explicou o advogado.

Além de toda a programação religiosa, a Afipe é responsável pela Romaria do Divino Pai Eterno, principal festa religiosa de Goiás e considerada uma das maiores celebrações religiosas do mundo. Ao longo de dez dias, são realizadas cerca de 100 missas e mais de 40 novenas, além de procissões, batizados, vigílias, alvoradas e confissões durante os dez dias de festa.

O evento reúne milhões de pessoas todos os anos. Em 2019, a romaria recebeu cerca de 3 milhões de fiéis de todo o Brasil e até do exterior. Neste ano, a celebração foi cancelada por causa da pandemia.

Segundo dados da Afipe, os trabalhos são mantidos por doações de fiéis. O evento também é responsável por movimentar a economia da cidade, que se mantém praticamente à base do turismo religioso, criado, principalmente, em torno da Basílica.

É por meio da doações de fiéis que a Afipe está construindo, desde 2012, uma nova Basílica em Trindade. A expectativa inicial era de que ela fosse concluída até 2022. Todavia, em 2018, essa previsão foi adiada para 2026.

O projeto prevê uma obra grandiosa: do alicerce até a cúpula, a basílica deve ter 94 metros de altura, o equivalente a um prédio de 30 andares, em uma área total de 120 mil metros quadrados.

Há dois anos o maior sino do mundo começou a ser feito para ser instalado justamente no templo. Feito na Cracóvia, cidade da Polônia, o objeto tem 4 metros de altura, 4,5 metros de diâmetro e 55 toneladas. O sino, chamado de Vox Patris, em homenagem ao Divino Pai Eterno, é composto 78% por cobre e 22% por estanho e conta com imagens em fundição, na parte externa, que narram a história da Santíssima Trindade desde 1840 até a construção do santuário em Trindade.

A primeira capela construída em Trindade, em 1843, também é um ponto de atração e templo de devoção. Em 1912, o local foi reformado e inaugurado o primeiro Santuário, atualmente conhecido como Santuário Velho ou Igreja Matriz, sede da Paróquia do Divino Pai Eterno.

No mesmo ano, a Matriz foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Em 2013, recebeu um novo tombamento, dessa vez como Patrimônio Cultural Material do Brasil.

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