Vai ter Terceira Guerra? O que se sabe sobre a crise EUA e Irã? Entenda

O ataque americano que matou o general iraniano Qassim Suleimani levou o Irã a prometer vingança e gerou especulação sobre uma Terceira Guerra Mundial. Mas esta possibilidade não deve acontecer, conforme especialistas consultados pelo UOL. Eles ponderaram que o Irã é uma força regional e sem peso para envolver as outras potências globais no conflito. Sem a Rússia, a China ou a União Europeia medindo forças com os Estados Unidos, não há uma guerra com dimensões globais.

Professor de Relações Internacionais da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), Paulo Velasco classificou como “exagero, com um quê de paranoia”, a possibilidade de uma Terceira Guerra Mundial. Ele justificou seu argumento citando que as demais potências militares do mundo não devem se envolver na situação.

A opinião é partilhada por Manuel da Furriela, professor de Relações Internacionais da FMU (Faculdades Metropolitanas Unidas), que é categórico em dizer que uma Terceira Guerra Mundial “não vai ocorrer”. O especialista explica que o Irã é uma potência regional no Oriente Médio, mas sem expressão global.

“A Primeira e a Segunda Guerra [Mundial] ocorreram na Europa, onde estavam as principais potências, com participação da União Soviética, Estados Unidos, China e Japão. Não vai ter guerra agora porque um conflito com o Irã não teria essa dimensão internacional”.

Ele lembra que há outros locais em que as potências globais exercem interesses diferentes e a situação não descamba para uma guerra. Cita a Síria, com os Estados Unidos apoiando grupos que tentam derrubar o presidente Bashar al-Assad. O político se manteve no cargo graças ao apoio da Rússia. Mesmo em campos opostos, não houve guerra entre as duas potências.

Velasco acredita que a Rússia vai atuar na questão como um ator que impõe limite, uma linha vermelha para as ações americanas. O ministro das Relações Exteriores, Sergey Lavrov, condenou os ataques. Mas o especialista também não vê Moscou com uma reação que vá além do diálogo.

Em relação a China, o professor avalia que há ainda menos interesse em se envolver. Embora o desenvolvimento econômico tenha transformado o país num grande consumidor de matérias-primas de várias partes do mundo, a presença militar na região é pequena. Limita-se a uma base no Djibouti, país situado no Chifre da África.

Já a União Europeia costurou o acordo entre Barack Obama, ex-presidente dos EUA, e o Irã para frear o programa nuclear dos iranianos e deve atuar para pedir calma. Líderes de França, Inglaterra e Alemanha já se manifestaram pedindo calma e diálogo.

A Terceira Guerra Mundial não está a caminho, mas o Irã deve reagir. O país perdeu seu segundo homem mais poderoso. O general Qassim Suleimani era considerado um herói nacional e comandava a Força Quds, unidade de elite da Guarda Revolucionária Iraniana. O professor de Relações Internacionais da UERJ considera três locais como alvos potenciais de Teerã: Iraque, Israel e Arábia Saudita.

“O primeiro e mais óbvio é dentro do próprio Iraque. Atacar posições americanas no Iraque. Há 5 mil soldados no país e mais 3 mil serão enviados [ao Oriente Médio]”, diz Velasco. “Junto aos soldados há todo poderio americano no Golfo Pérsico. Depois, o Irã pode tentar atacar aliados dos Estados Unidos numa agressão indireta, assim Israel e Arábia Saudita se tornam alvo.”

O professor de Relações Internacionais da FMU ressalta que Israel pode ser alvo porque representa o ocidente na região. “Israel e Arábia Saudita são alvos preferenciais, principalmente Israel porque sempre simbolizou os interesses americanos na região”, diz Furriela.

Já Velasco acrescenta que o Irã pode adotar medidas que prejudiquem a economia global fechando o Estreito de Ormuz. O local é a única ligação do Golfo Pérsico com os oceanos, na sua parte estreita tem 54 quilômetros de largura e fica entre Omã e o Irã. Uma ação militar impediria a passagem de navios petroleiros e trancaria um local por onde passa 20% da produção mundial de petróleo.

A morte do general Qassim Suleimani também tem impactos políticos internos no Irã. Furriela lembra que o país atravessa uma crise econômica que poderia ter diminuído com a implementação do acordo nuclear assinado em 2015 entre Obama e o Irã, do qual Donald Trump se retirou em 2018.

“A situação econômica iraniana é muito ruim e o acordo tinha como premissa equacionar este problema. O Irã é uma nação com grande potencial de desenvolvimento por ter recursos naturais e por ser um país muito organizado. O Irã é centrado na antiga Pérsia”, diz o professor da FMU

As eleições legislativas no Irã em fevereiro são um ponto de avaliação por parte de Velasco. Ele espera que os conservadores avancem com o discurso de que a tentativa de diálogo com o Ocidente promovida pelos reformistas se provou infrutífera e danosa. Outra consequência esperada pelo especialista é que o próximo presidente do país seja conservador e eleito com base neste discurso.

Qasem Soleimani era o chefe da Força Revolucionária da Guarda Quds, a tropa de elite do exército iraniano apontada como responsável pela invasão à embaixada americana em Bagdá no início da semana.

O Irã nega participação na invasão. Já os EUA afirmam, por meio de nota emitida pelo governo, que “Soleimani estava desenvolvendo planos para atacar diplomatas americanos e membros do serviço no Iraque e em toda a região” e que, por isso, a resposta teve como objetivo “impedir futuros planos de ataque iranianos”.

Para o professor de Relações Internacionais da ESPM Roberto Uebel, “o assassinato do general é tão grave quanto a captura e morte de Osama bin Laden”, em 2011. “Soleimani não era um terrorista, mas um militar de alta patente com excelente relação com o líder supremo do Irã, Ali Khamenei. Uma grande liderança política, talvez o futuro líder político do Irã.”

A histórica tensão entre americanos e iranianos, no entanto, se aprofundou em junho passado, quando dois petroleiros, um norueguês e outro japonês, foram atingidos por torpedos no golfo de Omã, uma área próxima ao Estreito de Ormuz, de onde sai um quinto do petróleo consumido no mundo.

Três meses depois, em setembro, um ataque a duas instalações petrolíferas da Arábia Saudita ganhou as manchetes. O disparo de 25 mísseis balísticos e drones contra duas refinarias —incluindo a maior do mundo— aumentou ainda mais a tensão, com a suspensão de metade da produção das petrolíferas, afetando 6% do abastecimento global.

Embora os rebeldes houthis, do Iêmen, tenham reivindicado o atentado, os Estados Unidos culparam o Irã, responsável por financiar o grupo. Para analistas, o objetivo iraniano era desestabilizar a Arábia Saudita, aliada dos Estados Unidos desde o final dos anos 1940, quando os americanos tornaram o petróleo um combustível estratégico para seu desenvolvimento e supremacia econômica.

O Irã é hoje uma potência regional suspeita de armar e financiar grupos armados para desestabilizar Iraque, Síria e Líbano. No Iraque, esse papel é exercido desde 2014, depois que o Irã ajudou a expulsar o Estado Islâmico do país sob as bênçãos dos Estados Unidos. As milícias iranianas, no entanto, decidiram ficar no país, irritando iraquianos e americanos.