Para além da sua notável contribuição para a ciência moderna, com grande quantidade de invenções e descobertas, tais como o helicóptero, a caneta esferográfica ou o Cubo de Rubik, o povo húngaro destaca-se, provavelmente ainda mais, pelo seu rico património musical, incluindo as suas tradições musicais amplamente difundidas pelo grande movimento de revivificação da música tradicional que se deu na década de 1970. A crescente popularidade dos clubes de danças tradicionais, uma forma de procurar reencontrar as raízes tradicionais, foi um um fenómeno que surgiu no seio da sociedade civil. Foi tal o sucesso, que atraiu muita gente de todo o mundo, espalhando-se os clubes de danças tradicionais pelos Estados Unidos e até na Ásia, com pessoas oriundas de outras culturas a aprender as danças tradicionais dos magiares. Da mesma forma, muitos estrangeiros se interessaram e se dedicaram à divulgação do chamado Conceito de Educação Musical de Kodály. Porquê?

Os dois compositores mais eminentes da Hungria, Zoltán Kodály e Béla Bartók, conseguiram, durante as primeiras duas décadas do século 20, recuperar as camadas mais antigas da música tradicional húngara, numa altura em que o campesinato, transmissor deste repertório musical único, começara a desaparecer enquanto classe social, na consequência do crescente nível de industrialização. Através dos seus frequentes trabalhos de recolha de canções tradicionais, e do seu trabalho académico, incluindo a transcrição, a sistematização e a publicação deste repertório, Kodály e Bartók conseguiram assegurar que estas jóias da cultura musical húngara, de alto valor cultural e estético, se tornassem do domínio público. Este trabalho académico tornou-se uma inspiração especial, tanto para Kodály como para Bartók, no seu trabalho de compositores e, consequentemente, os sons das aldeias e dos camponeses fertilizou o seu estilo composicional, resultando na criação de um novo e moderno estilo de música erudita.

Zoltán Kodály desenvolveu o seu Conceito de Educação Musical baseando-se nas tradições musicais e culturais da Hungria e da Europa. Um elemento essencial do conceito educacional de Kodály é o uso sistemático de canções tradicionais na educação musical nas escolas. O conceito foi integrado na educação musical do ensino genérico e do ensino artístico na Hungria, com o Instituto Kodály da Academia de Música Liszt (na cidade de Kecskemét) e as escolas do ensino artístico especializado como os seus centros de difusão.

O Instituto sob a minha Direção está determinado em salvaguardar os valores do Conceito de Kodály e da educação musical na Hungria, ao mesmo tempo que vai constantemente adaptando a aplicação prática destes princípios aos desafios e oportunidades do mundo de hoje. É uma faculdade de excelência que acumulou uma significativa experiência internacional, onde cada um dos estudantes recebe uma atenção especial de acordo com as suas necessidades individuais de forma a garantir um eficaz desenvolvimento das suas aptidões musicais, alargando os seus horizontes musicais.

Embora o conceito tenha sido criado na Hungria, graças aos seus princípios, a práticas pedagógicas bem estruturadas, bem como ao seu humanismo intrínseco, pode ser adoptado em qualquer outro país desde que tenha sido estudado criteriosamente e que as especificidades locais sejam tomadas em conta.

Desde a Conferência da ISME (International Society for Music Education) organizada em 1964 em Budapeste que centros e institutos Kodály começaram, por todo o mundo, a adaptar o Conceito Kodály às tradições locais e aos sistemas de educação musical. O mapa incluso mostra a sua ampla difusão. A aceitação internacional do conceito é evidenciada pela criação da International Kodály Society em 1975 (www.iks.hu) que oferece um fórum de intercâmbio para professores de música. Desde 2016 que o Conceito de Kodály para a salvaguarda do património da música tradicional da Hungria consta da Lista de Boas Práticas de Salvaguarda (Register of Good Safeguarding Practices) da UNESCO que o considerou um modelo de ensino de mérito, implementável no resto do mundo.

A UNESCO, tal como o Governo húngaro, declarou 2017 como um ano de comemoração de Zoltán Kodály. As embaixadas, consulados gerais e institutos culturais húngaros das diferentes partes do mundo organizaram, nesse ano, cerca de trinta conferências científicas, mais de duzentos concertos e quarenta workshops para a divulgação da música e do método pedagógico de Kodály, sempre em colaboração com instituições de música locais.

Qual é a relevância de tudo isto para Portugal? Portugal é um exemplo especialmente querido da aplicação do Conceito Kodály na Europa. Em 2008, uma das instituições de proa da educação musical de nível superior, a ESML, organizou a primeira viagem de estudo intensivo, de uma semana, ao nosso Instituto. Desde então, essas viagens regularizaram-se e através do programa de mobilidade Erasmus, dezenas de estudantes de música portugueses frequentaram o Instituto Kodály na Hungria no mínimo por um semestre, alguns deles até quatro semestres.

Cristina Brito da Cruz, docente da EMSL, é a directora do Centro de Kodály de Portugal, criado no ano Kodály, em 2017. Foi por influência de um grande compositor português, Fernando Lopes Graça (descrito por alguns como um Bartók português, em função da sua obra de salvaguarda da música tradicional e composicional) que, há cerca de 30 anos, a professora, estudou dois anos no Instituto Kodály de Kecskemét. Voltou para Portugal com um diploma de excelência, trazendo consigo uma nova visão do ensino, e começou, de forma sistemática, a introduzir, passo a passo, os princípios Kodályianos. Num documentário feito sob orientação do Instituto Kodály, sobre o sucesso internacional do método Kodály, a Professora partilhou os seus projectos e sonhos:

“Como disse Kodály: a música deveria ser de todos! Tudo começa com o canto, com o movimento e com o sentir. O que eu gostaria de ver implementado em Portugal era QUE TODAS AS CRIANÇAS APRENDESSEM MÚSICA com professores com boa formação, com especialistas que começassem a trabalhar com as crianças numa tenra idade. Por serem crianças elas não merecem “piores” músicos ou “piores” professores: o que merecem, de acordo com Kodály, é material musical de alta qualidade ajustada à sua idade – Isto é essencial! – tal como o imperativo de conhecermos bem o nosso próprio património de música tradicional e a música erudita de qualidade. Em Portugal também se fez a recolha de música tradicional, mas o repertório recolhido não resultou em material didáctico organizado pedagogicamente em função do desenvolvimento musical das crianças, como fizeram Kodály e os seus seguidores. Apenas agora iniciámos essa enorme tarefa”.

Para mim, é um prazer poder voltar a Lisboa para darmos continuidade ao nosso trabalho comum. Há um ano, o edifício histórico da embaixada da Hungria em Lisboa acolheu um evento onde a Embaixadora Klára Breuer, a Presidente da Associação Portuguesa de Educação Musical, Manuela Encarnacão, eu próprio e a Prof. Cristina Brito da Cruz, juntamente com a Associação Portugal-Hungria para a Cooperação, assinámos um documento oficializando a criação do Centro Kodály de Portugal. Contando com o apoio da Embaixada, da APEM e do Centro Kodály, os seminários Kodály, muito procurados, continuarão a ser organizados com regularidade.

A iniciativa mais recente de cooperação prende-se com a introdução do Conceito de Educação Musical Kodály em Cabo Verde, onde a música é parte integrante do dia-a-dia das pessoas, mas onde não existe, ainda, uma educação musical organizada e estruturada acessível a todas as crianças do pré-escolar e ensino básico e baseada na música tradicional e erudita. É motivo de grande satisfação saber que, uma vez mais com a colaboração da Professora Cristina Brito da Cruz, a Embaixada da Hungria em Lisboa conseguiu, nestes últimos dois anos, organizar dois seminários na cidade da Praia, com vista ao alargamento dessa cooperação. Há por isso trabalho para fazer e muitas oportunidades para ajudar as crianças do mundo lusófono a desenvolverem as suas capacidades musicais através do método Kodály. Mas este é um tema para um outro artigo!