Se você pertence ao grupo que nunca viu Oito e Meio no cinema, é sua chance. E, se você já viu, reveja, mesmo assim. Esse é o filme que a Associação dos Amigos do Cinema de Santa Cruz do Sul exibe nessa terça-feira, 21, a partir das 20 horas, na sede do Sindicato dos Bancários (Sindibancários, na Rua Sete de Setembro, 489), com entrada franca.

Nove entre dez críticos vão dizer que Fellini 8 1/2 é a obra-prima do diretor e até o décimo será capaz de vacilar entre A Doce Vida e Amarcord, retornando a Otto e Mezzo. Em 1963, ganhou o Oscar de filme estrangeiro e também o de melhor figurino em preto e branco. Mais recentemente, uma enquete com 30 importantes cineastas apontou-o como o maior filme europeu de todos os tempos e Fellini, como o autor mais influente.Mesmo assim, Oito e Meio não é, e nunca foi, uma unanimidade. Na época, o filósofo Gerd Bornheim considerava absurdo que um artista reduzisse o cinema a um delírio autobiográfico – desconsiderando o fato de que o próprio Fellini dizia que, de todos os seus filmes, talvez fosse o que menos se inspirava em incidentes de sua vida. A crítica norte-americana Pauline Kael também não rezava pela cartilha de Oito e Meio. Admirava a beleza das cenas, mas achava que Fellini se comportava como um aspirante a diretor, transformando um receituário de situações que espelhavam a suposta crise de criação em verdades absolutas, e que nesse sentido o filme lhe parecia bem convencional.De todas as críticas feitas a Oito e Meio, a de Pauline Kael permanece a mais bizarra. “Convencional” não é um termo que se aplique impunemente a um filme como o de Fellini. O diretor realizou-o logo depois de A Doce Vida, em 1960. Na verdade, entre ambos, exercitou-se num pequeno grande filme – o episódio As Tentações do Dr. Antônio, incorporado a Boccaccio 70 com outros episódios assinados por Luchino Visconti (O Trabalho) e Vittorio De Sica (A Rifa).Na época, Fellini leu a biografia de Jung, adentrou-se nos mistérios do I Ching e passou a fazer o registro de seus sonhos. Hoje, o que o diretor chamava de “percepções extrassensoriais” são interpretadas como manifestações psíquicas do seu inconsciente e, como tal, à luz da psicologia de Jung, constituem-se numa influência decisiva sobre a arte do Fellini mais maduro, marcando sua definitiva ruptura do neorrealismo, do qual já vinha se distanciando pela via do onirismo. Oito e Meio começa num clima de sonho, com um homem que foca no carro parado no trânsito pesado. É uma metáfora do impasse criativo vivido por Guido Anselmi, o cineasta interpretado por Marcello Mastroianni – e o grande ator tornou-se o alter ego do autor.O filme que Guido sonha realizar não anda e ele libera sua mente em lembranças e projeções fantásticas que Fellini transforma em imagens filmadas nos gigantescos sets montados no estúdio 5 de Cinecittà. Dessa forma, o cineasta idealiza o passado, suas lembranças e as mulheres. Além da esposa (Anouk Aimée) e da amante (Sandra Milo), ele é perseguido por uma jovem que representa a pureza (Claudia Cardinale) e pela animalesca e demoníaca Saraghina (Eddra Gale), que talvez tenha sido o seu primeiro objeto de desejo, quando garoto. Com os coleguinhas de escola, Guido Anselmi corre à casa de Saraghina, frente ao mar, e lhe pede que dance. “La rumba, Saraghina, la rumba!”

Oito e Meio inspirou dois famosos musicais. O primeiro foi All That Jazz/O Show Deve Continuar, de Bob Fosse, que dividiu com Kagemusha – A Sombra do Samurai, de Akira Kurosawa, a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1980. No filme de Fosse, um diretor à beira da morte faz a síntese de sua vida e obra num leito de hospital. Veio depois, em 2009, Nove, de Rob Marshall, que os fellinianos de carteirinha tendem a menosprezar, mas no qual Fergie, como a Saraghina, é poderosa. Seu número é magnífico, e Fellini, que morreu em 1993, aos 73 anos, teria aprovado.