“15:17 to Paris” foi um erro na carreira, irregular mas extraordinária de Clint Eastwood. “The Mule” é uma oportunidade de reabilitação para Eastwood, sobretudo porque o norte-americano é, de novo, ator e realizador, abordagem que lhe costuma sair bem.

O protagonista de “The Mule” chama-se Earl Stone, um ex-combatente da guerra da Coreia. É um artista com as plantas, capaz de conseguir um jardim mais bonito do que qualquer português das Beiras. O homem tem mais de 80 anos e o seu negócio afunda-se. Separado da mulher que o abandonou há muito, Earl tem péssima relação com a filha, contando só com o amor incondicional da netinha.

O argumento de Nick Schenk – o mesmo de “Gran Torino” – dá a oportunidade a Clint Eastwood de mostrar as suas obsessões e de dizer as coisas sem preocupações de ser politicamente correto. O protagonista é um dinossauro e faz afirmações que podem não agradar a uma boa faixa do público; apesar disso, Earl é amigo do seu amigo e uma pessoa agradável.

Clint Eastwood como ator, na sua avançada idade, se não existisse tinha de ser inventado. Frágil, e cansado, por vezes a personagem que interpreta parece o trabalho de um escultor exagerado. Como aconteceu em filmes anteriores há momentos que fazem pensar na autobiografia, e o facto de a filha de Eastwood desempenhar o mesmo papel no filme ajuda à confusão e à mistura da biografia com a autobiografia no que, afinal, é uma ficção inspirada numa história real.

“The Mule” é um drama sem grandes surpresas com retoques cómicos que se devem sobretudo a algumas personagens mais ou menos grotescas. Já vimos muitas vezes as estradas poeirentas e desertas, as sanduíches de beira do caminho ou a música que entoa num bar manhoso. O deixa-nos tempo de admirar essas coisas tão americanas e aproveitar a vida, tal como Earl que, aos 80 e tal anos, faz pausas para aproveitar cada segundo, cada minuto, cada hora que lhe resta.

O velho realizador parece mais livre do que nunca, e aproveita a fundo esta personagem tão rica e multifacetada. À superfície parece que Clint Eastwood quer fazer desta obra um testamento, mas há tanta coisa que nos deixa a certeza de que o velho americano ainda tem muito para nos contar…