RIO — Um total de quase 300 indicações em festivais e premiações cinematográficas de todo o mundo, com vitórias em mais de 170 delas, de circuitos independentes até a meca do cinema mundial como Cannes, Globo de Ouro e Bafta. E “Parasita”, de Bong Joon-ho, teve mais. Indicada a seis Oscars, a produção saiu vencedora de quatro: melhor filme, direção, filme internacional e roteiro original. Uma lista de tirar o fôlego, sem mencionar a arrecadação mundial, que ultrapassa R$ 560 milhões.

O desempenho fenomenal da obra pode surpreender alguns desavisados. Para cinéfilos, entretanto, é o eventual e merecido reconhecimento de um trabalho que há décadas fascina audiências internacionais. A indústria cinematográfica sul-coreana desponta hoje como a quinta maior do mundo, com faturamento anual em torno de R$ 6,78 bilhões, encabeçado tanto por blockbusters de ficção científica como “Invasão zumbi” (2016), de Sang-ho Yeon, quanto por novos clássicos cult como “Oldboy” (2003), de Chan-wook Park. A jornada para este sucesso, no entanto, é mais antiga do que se pode imaginar.

Quando o pioneiro diretor coreano Kim Do-san estreou em 1919 “A vingança honrada”, inaugurou na Coreia — que nem sequer havia sido dividida em duas — uma tradição cinematográfica sem precedentes. Sua obra foi reflexo das transformações ainda iniciais do cinema como forma de arte. Tratava-se de um kino-drama, espécie de montagem que combinava elementos de projeção e dramaturgia.

Se “Parasita” apresenta uma Coreia do Sul independente, urbana e conectada às influências e dilemas do mundo capitalista globalizado, os personagens de “A vingança honrada” vivem em uma Coreia miserável, consumida pela opressão do Japão colonial e desconectada do resto do mundo.

A luta contra a censura e a repressão japonesa seria inclusive o grande mote da primeira leva de filmes. Direta ou indiretamente, muitos retratariam os temas de resistência e nacionalismo em suas produções. A obra-prima da época é “Arirang” (1926), de Na Un-kyu, que produziu, dirigiu e estrelou a trama sobre um homem mentalmente instável que mata o filho de um rico proprietário de terras, vinculado à polícia japonesa. Com o tempo, a obra tornou-se inspiração para gerações de jovens cineastas em busca de um cinema que seguisse os princípios de realismo e resistência política.

Apesar da crescente popularidade do cinema local, que exaltava o nacionalismo coreano no fim da década de 1920, a censura japonesa se tornou mais rigorosa a partir de 1930. Filmes foram banidos e posteriormente destruídos, sem deixar traços. Com a derrota do Japão na Segunda Guerra Mundial e a divisão da Coreia em dois Estados antagônicos, a produção cinematográfica se tornou quase nula. Foi somente após o acordo de armistício de 1953 que o presidente Rhee Syngman isentou o cinema de todos os impostos, na esperança de reviver a indústria. Os programas de ajuda externa forneceram tecnologia e equipamentos para filmes, preparando o cenário para o renascimento do setor nos anos 1950 e 1960.

Sob uma legislação que controlou cuidadosamente a exibição de filmes estrangeiros até 1988, quando foi criada uma nova constituição, a indústria de cinema da Coreia teve por muito tempo uma reserva de mercado garantida, o que permitiu a expansão e fortalecimento da produção. Porém, em um país moldado pelos tradicionais valores confucionistas, o primeiro beijo retratado em um filme coreano ocorreu apenas nos anos 1950, em “O beijo”. Um sucesso de bilheteria para um país que acabara de sair da guerra com a Coreia do Norte e se abria à influência ocidental.

A mudança mais significativa se deu na década seguinte à nova constituição. Em 1996, Hong Sang-soo lançou “Daijiga umule pajin nal” (“O dia em que o porco caiu no poço”, em tradução livre), que revolucionou a produção nacional. A obra entrelaça de forma mundana a vida de quatro personagens diferentes e seus cotidianos banais. Longe dos rígidos princípios morais do país, com atuações naturalistas, o filme iniciou um novo modo de contar histórias.

Com a transição para um regime democrático nos anos 1990 e uma maior liberdade para viagens internacionais, jovens artistas passaram a ter mais contato com culturas estrangeiras. E sob esse caldo o país produziu seu primeiro blockbuster: “Shiri” (1999). Dirigido por Kang Je-gyu, ofilme transita entre a ação e o melodrama para narrar a aventura de uma agente secreta norte-coreana em ação no país inimigo.

O filme foi um sucesso instantâneo, o mais visto do ano no país, batendo mesmo o poderoso “Titanic”. Tornou-se um marco do cinema coreano, que se expandiu na Ásia com a chamada Hallyu, a nova onda que levou a produção cultural nacional para o mundo, com filmes, séries televisivas e música.

Com a virada do milênio, os longas reconhecidos como o novo cinema sul-coreano passaram a focar em festivais internacionais. Os blockbuster levavam milhões de espectadores às salas, enquanto os filmes de autor consolidavam o prestígio da indústria, com diretores como Park Chan-wook, Kim Ki-duk e Lee Chang-dong.

Hoje livre de censuras, o inegável talento do cinema coreano se tornou cartão de visitas e coração da indústria criativa do país, com ganhos econômicos e de capital político — resultado do investimento tanto do capital privado como do governo. A 11ª maior economia do mundo ostenta mais de 3 mil salas de cinema e uma bilheteria anual de mais de 216 milhões de espectadores. E os pouco mais de 50 milhões de habitantes apoiam continuamente a produção interna. Em 2019, de um total de mais de 1600 estreias, 454 delas foram filmes nacionais.

* Thiago Mattos Moreira é especialista em Ásia, mestre em Relações Internacionais pela Uerj e em Políticas Públicas pelo Korean Development Institute (KDI)

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