Em entrevista à agência Lusa, no âmbito do Festival Internacional de Cinema Cine Côa, que decorre em Vila Nova de Foz Côa, no distrito da Guarda, até sábado, o produtor cinematográfico, homenageado pelo certame, considera que ainda “é um pouco difícil” levar o cinema mais independente ao interior do país.

“Há um circuito alternativo de distribuição de filmes, e todos nós pretendemos que ele se desenvolva. O meu trabalho também contribuiu para mostrar o que de melhor se faz ao nível do cinema e trazê-lo às mais diversas vilas e cidades do interior de Portugal, escapando, assim, à previsão de que o cinema vai acabar”, disse o produtor.

“Há muito trabalho a fazer em Portugal. Houve um hiato nesta matéria, e agora passa pelas escolas, pelos cineclubes, pela imprensa e pelas plataformas digitais, divulgar o cinema que se faz em Portugal. Noutros países da Europa este trabalho está consolidado e, em Portugal, ainda não se fez”, frisou.

“Quando se está em casa diante de um televisor ou de um computador, a ver filmes, a maior parte das vezes somos distraídos por diversas situações que acontecem, e não estamos concentrados no que estamos a ver. Os filmes, como qualquer obra de arte, precisam de ser apreciados e, se não for em sala de cinema, dificilmente isso pode acontecer”, justificou à Lusa.

“As elites também contribuíram para que esta situação acontecesse, e deixaram de ir às salas de cinema, deixaram de ter contacto com a arte cinematográfica. Pura e simplesmente, são raríssimas as pessoas que vão às salas de cinema. Veem os filmes em casa ou em outros espaços, [muitas vezes] em situação ilegal e pirateiam os filmes, tanto como os jovens, e também se vangloriam destas situações, quase como uma afirmação”, observou.

O produtor destaca, ao mesmo tempo, a existência de boas salas para a projeção de filmes, em todo o país, mesmo no interior profundo. A realidade mudou, defende à Lusa. Antigamente era “desesperante” o desaparecimento sistemático de equipamentos e sítios para a projeção de filmes, recorda.

Paulo Branco marcou presença em Vila Nova de Foz Côa, onde foi homenageado no Cine Côa, Festival Internacional de Cinema. No contexto da celebração, foi projetada, em antestreia, a sua mais recente produção, “Caderno Negro”, de Valéria Sarmiento.

A obra conta com os desempenhos de Lou de Laâge, Stanislas Merhar, Niels Schneider e Victoria Guerra, como Maria Antonieta, e teve a sua antestreia nacional em Vila Nova de Foz Côa, depois de ter passado pelo festival de cinema de San Sebastián, em Espanha.

No seu currículo conta a produção de mais de 250 filmes de cineastas como Manoel de Oliveira, João César Monteiro, João Canijo, João Botelho, Teresa Villaverde e Pedro Costa, tendo igualmente trabalhado e produzido obras de realizadores como Wim Wenders, David Cronenberg, Alain Tanner, Werner Schroeter, Raúl Ruiz, Chantal Akerman, Valeria Bruni-Tedeschi e do escritor norte-americano Paul Auster, com quem trabalhou na produção de “A vida interior de Martin Frost”.