Por Gabriel Sobreira

Publicado às 00h00 de 10/11/2019 – Atualizado às 00h00 de 10/11/2019

A estação Central do Brasil virou, ontem, um ‘arraiá’ com direito a quadrilha, sanfona, chapéu e sandália de couro, zabumba e triângulo. Em comemoração ao Dia Nacional da Cultura Brasileira (dia 4) e ao centenário de nascimento de Jackson do Pandeiro, a segunda edição do Trem do Forró, realizada pelo Fórum Matrizes do Forró RJ, em parceria com a SuperVia, partiu da Central até Nova Iguaçu, onde um cortejo seguiu rumo ao Espaço Cultural Sylvio Monteiro, no Centro do município da Baixada Fluminense.

Forrozeiros de todas as idades cantaram e dançaram em vagões decorados, reverenciando nomes como Luiz Gonzaga, Dominguinhos, João do Vale, Mestre Zinho, Jackson do Pandeiro e também as mulheres forrozeiras.

“Os vagões estão muito lindos. Estou muito emocionada porque começamos uma festa e o nosso trem vai que vai. A gente, em nome da cultura nordestina, agradece à SuperVia por abrir esse espaço. É mais valorização da nossa cultura”, disse a empresária Francisca Nonato, a Chiquita, da Barraca da Chiquita, que celebra 40 anos de culinária nordestina.

Segundo Jadiel Guerra, coordenador do Fórum Matrizes do Forró do RJ e coordenador do evento, Jackson do Pandeiro merece todas as homenagens. “Paraibano de Alagoa Grande, Jackson do Pandeiro saiu pobre, com um pandeirinho, lá da sua terra e, aos poucos, ganhou as rádios de Recife, Paraíba e veio para o Rio, através da Rádio Nacional. No cinema, popularizou a nossa música. Portanto ele tem sua importância não só para o meio forrozeiro, mas para a música brasileira e universal”, defendeu. “Queremos que, assim como o Trem do Samba, este trem seja o mesmo sucesso”, afirmou o forrozeiro.

Direto da Região Oceânica, em Niterói, a comerciante Célia Garcia, 59 anos, não pensou duas vezes. Embarcou na estação e não parava de arrastar o pé ao lado do amigo, o médico veterinário Antonio Galdino Francisco, 67. “É nossa primeira vez. Estamos achando maravilhoso. Dançar com o trem em movimento é difícil, mas não impossível”, atestou ela aos risos, entre um floreio e outro.

Passageiros embarcavam normalmente e eram surpreendidos com a festa que atravessava os vagões. “Impossível não se contagiar nem se divertir com uma viagem dessas”, afirmou o estudante Jefferson de Souza, de 25 anos, que embarcou na estação Méier. Um ambulante desavisado perguntava, incrédulo, se todos os trens estavam “desse jeito”. “Não, acho que só esse”, respondeu Souza.

Para o microempresário Anderson da Motta Reis, 45 anos, morador de Maricá, a iniciativa merece vida longa. “O forró é riqueza do nosso país, nossa cultura. A gente tem que prestigiar”, disse ele, que foi acompanhado da mulher, de sua enteada e também da cunhada.

“Jackson do Pandeiro (1919-1982) está “puxando” o vagão do Trem do Forró não somente pelo centenário de nascimento, mas porque é uma figura que representa muito para o forrozeiro e o forró no Rio de Janeiro e no Brasil e no mundo. No Rio, pq a maior parte da vida dele viveu aqui. No Brasil porque ele popularizou o ritmo em uma forma, que poucos forrozeiros conseguiram com seu pandeiro. O Jackson teve um ambiente muito bacana junto aos sambistas do Rio porque teve uma aproximação e um jeito de tocar pandeiro como poucos. Ele não só gravou forró, frevo, ele gravou também samba-forró. Aí está a grande diferença. Se temos o Rei do Baião que é Luiz Gonzaga, a gente tem o Rei do Ritmo Jackson do Pandeiro no nosso meio forrozeiro. Há quem diga até o seguinte: se para o forró, Luiz Gonzaga é o Pelé, para o forró Jackson do Pandeiro é o Garrincha. Os dois têm grande importâcia. Não somente no cenário do Brasil, como no cenário da Música Popular Brasileira. Acredito que ele tem seu lugar junto com grandes mestres como Ari Barroso, Noel Rosa, grandes sambistas brasileiros. Ele no cinema, na TV, no samba, no forró, foi o rei e sua majestade precisa ser reconhecida”.

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