Com o fim da temporada 2019 da Fórmula 1, chegou o momento de revisitarmos com calma o passado recente e analisar mais detalhadamente o que deu certo e o que deu errado no campeonato. Para isso, preparamos um conteúdo especial detalhando alguns dos pontos que passaram batidos. Ou até aqueles que merecem ser discutidos novamente após mais um ano da categoria máxima do automobilismo mundial.

Se Lewis Hamilton, Max Verstappen e Charles Leclerc brilharam, outros nomes estiveram abaixo do esperado ao londo do ano. Entre as equipes, também tivemos confirmações positivas e negativas, além de algumas surpresas.

Com 413 pontos contra 326 do companheiro, Hamilton encerrou a temporada com mais um título mundial, o sexto de sua carreira. E o britânico também bateu o companheiro em todas as outras estatísticas, ratificando sua superioridade ao longo do ano.

Entretanto, se na Mercedes foi fácil identificar o ‘dono do time’, em outras equipes não foi tão tranquilo avaliar quem foi o melhor. Confira como foram os embates em cada escuderia:

Não bastou ser campeão. Hamilton superou Bottas em quase todas as estatísticas: 11×4 em vitórias, 6×3 em voltas mais rápidas, 17×15 em pódios, 511×185 voltas na liderança. Os dois só terminaram empatados em poles por 5×5, mas Hamilton largou 14 vezes à frente do companheiro.

Leclerc não goleou Vettel, mas o monegasco foi inquestionavelmente superior: pontos 264×240; vitórias 2×1; pódios 10×9; poles 7×2; voltas mais rápidas 4×2 e 246×160 em voltas na liderança. Além disso, Leclerc largou 12 vezes à frente do tetracampeão.

A comparação entre Verstappen e Albon chega a ser injusta, porque o tailandês disputou apenas 9 corridas pela Red Bull. No período em que dividiram a garagem, foram 97×76 pontos a favor do veterano, 1×0 em vitórias, 4×0 em pódios, 1×0 em poles (8×1 em posições de largada). Ao longo do ano, o holandês fez 3 voltas mais rápidas e liderou 156 voltas, contra zero do companheiro em ambos os casos.

Carlos Sainz Jr. bateu o companheiro, Lando Norris, mas a disputa foi razoavelmente equilibrada, visto que o britânico era um novato. O espanhol venceu em pontos (96×49); largadas à frente (11×10) e pódios (1×0).

O GP da Itália foi o melhor do ano, tanto para Ricciardo quanto para Hulkenberg. O australiano terminou a prova em 4º e o alemão em 5º. Nos outros números que permitem comparação, vantagem para o australiano: pontos 54×37; largadas 14×7.

Kvyat teria alcançado o maior resultado da década para a Toro Rosso, mas Gasly chegou ao pódio no Brasil. O russo foi 3º na Alemanha, enquanto o francês foi 2º em Interlagos. Em pontos, Gasly leva a melhor, com 95×37. Em largadas também, 7×2.

Apesar de Lance Stroll ter alcançado o melhor resultado da equipe do pai em 2019, com o 4º lugar na Alemanha, Sergio Pérez foi o verdadeiro dono do time. Foram 52 pontos do mexicano contra 21 de Stroll e nada menos que 18×3 em largadas.

Antonio Giovinazzi recebeu um voto de confiança e permanecerá na equipe em 2020, mas Kimi Raikkonen superou o companheiro em todos os quesitos. Melhor posição: 4º do finlandês, contra 5º do italiano; 43×14 nos pontos e 13×8 em largadas. Mas Giovinazzi conseguiu algo que ninguém mais fora das três equipes de ponta: liderou uma corrida. Foram 4 voltas na liderança em Singapura.

Kevin Magnussen teve um 6º lugar como melhor posição de chegada, enquanto Romain Grosjean foi 7º na Alemanha. O dinamarquês também levou vantagem em pontos, com 20×8; em posições de largada, 12×9. Surpreendentemente, Magnussen fez 1 volta mais rápida, no GP de Singapura, onde já havia alcançado o feito em 2018.

Robert Kubica pode ter somado o único ponto da equipe no GP da Alemanha. Mas sua falta de desempenho nas classificações mostram quem foi o melhor do time em 2019. Russell bateu o companheiro por 21×0 em largadas.

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Ou melhor, unidades de potência. Com a hibridização da Fórmula 1, nem sempre quem gera mais potência no giro dos cilindros é o mais rápido. A Honda avançou muito em 2019, tanto em velocidade quanto em confiabilidade, e as unidades térmica (MGU-H) e cinética (MGU-K) tiveram grande destaque nessa evolução. Confira o retrato da temporada entre as fabricantes de motores:

A marca alemã pode ter sido a líder em todas as estatísticas, mas há consenso na F1 de que as flechas de prata não contam mais com o melhor propulsor, mas com o conjunto mais equilibrado. Foram 15 vitórias em 21 provas, 32 pódios, 10 poles, 9 voltas mais rápidas e 696 voltas na liderança. Isso sem contar as equipes clientes dos germânicos, Williams e Racing Point, que juntas somaram apenas 74 pontos, praticamente 10% dos 739 da equipe própria da Mercedes.

O motor italiano foi o principal responsável pelas 3 vitórias alcançadas em 2019, sem contas as 9 poles. Todos no paddock apontam a unidade da Ferrari como a mais potente do grid. O calcanhar de aquiles do time foi a confiabilidade. Em mais de uma oportunidade, os propulsores de Maranello falharam justamente nos momentos mais importantes, como no Bahrein, quando deixaram Leclerc na mão no fim de uma prova que havia dominado completamente. Apenas a própria Ferrari conseguiu se aproveitar do poder de sua máquina, pois a Haas definhou com um carro mal projetado. Saldo: 532 pontos, 19 pódios, 9 poles, 7 voltas rápidas e 406 voltas na liderança.

Apesar dos números ainda modestos, a Honda pode ser considerada a mais bem sucedida fornecedora de motores de 2019, pois não possui equipe própria e alcançou um bom desempenho com suas duas equipes clientes. O salto em relação aos anos de parceria com a McLaren é inegável. Foram 502 pontos (415 com Red Bull + 85 da Toro Rosso), 11 pódios (2 da Toro Rosso) e a Red Bull ainda conseguiu 3 vitórias, 2 poles, 5 voltas mais rápidas e 156 voltas na liderança.

Antes de perder sua cliente de longa data, a Red Bull, e de a Honda dar um passo adiante, a unidade motriz da Renault era a terceira força do grid. No entanto, os franceses tiveram um dos piores anos de sua história na F1. Acostumada a vencer, a marca francesa alcançou um único pódio na temporada, e com sua equipe cliente, a McLaren. O time próprio da Renault amargou uma sucessão de derrotas para os britânicos, ainda que tenha havido certo equilíbrio nas estatísticas. Foram 236 pontos alcançados com os propulsores da Renault, mas apenas 91 com o time próprio.

Se depois de oito etapas todos esperavam por uma conquista acachapante da Mercedes em 2019, ninguém podia imaginar que Red Bull e Ferrari conseguiriam dar o ‘calor’ nos alemães do GP da Áustria em diante.

Após a saída de Daniel Ricciardo da Red Bull, era de se esperar que Verstappen dominasse quem quer que fosse seu novo companheiro de equipe. Dito e feito: o holandês foi o único da equipe a vencer, fazer poles, subir ao pódio e liderar corridas. Talvez não se imaginasse uma vantagem tão grande para o holandês, mas ele apenas confirmou o que se esperava dentro do próprio time.

Por outro lado, ninguém apostaria num desempenho tão fraco e em um rebaixamento de Gasly nas férias de verão. O jovem francês sofreu para se adaptar ao carro da Red Bull desde os testes de pré-temporada e nunca conseguiu sequer andar no mesmo ritmo que Verstappen. Seu único legado foram 2 voltas mais rápidas. Curiosamente, depois de voltar à Toro Rosso, o francês reencontrou a boa forma e alcançou o pódio no GP do Brasil, em uma emocionante volta por cima.

Pode até ser que alguém apostasse que Hamilton poderia deixar o título escapar, mas dificilmente encontraremos alguém que não imaginasse que o britânico ‘nadaria de braçadas’ caso tivesse um bom carro nas mãos. A missão foi dada e o pentacampeão virou hexa, vencendo nada menos que 11 das 21 provas de 2019.

Depois do anúncio da chegada de Leclerc na Ferrari, pairavam dúvidas sobre a atitude e capacidade de Vettel continuar ‘mandando’ no time. No entanto, nem as previsões mais pessimistas diriam que o tetracampeão seria batido em todas as estatísticas pelo jovem companheiro. Pior do que isso, o alemão colecionou uma sequência de erros em 2019, que fizeram muitos questionarem se é a hora de sua aposentadoria.

Lance Stroll mostrou ser um piloto capaz de lampejos de brilhantismo, como aconteceu no GP de Baku em 2017. No entanto, era esperado que Pérez colocasse o jovem canadense para comer poeira. O mexicano não apenas superou o companheiro, como deixou o filho do patrão chupando o dedo nos resultados.

A dificuldade de mobilidade fazia com que a volta de Kubica fosse cercada de ceticismo. Porém, ninguém imaginava que o polonês, outrora apontado como um futuro campeão, seria dominado pelo jovem companheiro de equipe, George Russell. Apesar de ter conquistado o único ponto da Williams em 2019, Kubica andou atrás de Russell o tempo todo, especialmente em classificações.

Depois de fazer tempos substancialmente mais rápidos do que a Mercedes nos testes de pré temporada, acreditava-se que o time italiano iria chegar com tudo para o campeonato. Que nada! Logo nos treinos classificatórios para o GP da Austrália, ficou claro que os alemães esconderam o jogo e que a Ferrari se mostrou demais. A equipe de Maranello ainda conseguiu algumas poles e bons resultados no início do ano, mas só desencantou depois das férias de verão, quando o jogo já estava praticamente ganho para os alemães.

As flechas de prata jamais deixaram de ser favoritas. Se a Ferrari fez bonito e ameaçou nos testes, ninguém imaginava que os alemães “largariam o osso” com facilidade. No fim das contas, somente um dos gigantes entrou em campo e a Mercedes esmagou os rivais, principalmente no começo da temporada, quando conseguiu nada menos que 8 vitórias consecutivas. Resultado: o hexacampeonato.

Depois de estrear na F1 superando equipes tradicionais como a Renault e a Sauber, a Haas progrediu pouco a pouco entre 2016 e 2018, chegando a terminar em 5ª no mundial de construtores do último ano. Por isso, ver a equipe norte-americana despencar para a penúltima posição do grid foi uma grande surpresa, até para quem esperava um desempenho mais modesto do time em 2019.

Se a queda da Haas foi uma surpresa, o ressurgimento da McLaren foi algo esperado. Depois de anos de uma parceria fracassada com a Honda, os britânicos conseguiram se reerguer nos últimos dois anos, avançando de forma lenta, mas constante. O quarto lugar na classificação em 2019 foi a confirmação de um trabalho bem planejado.

Se a McLaren evoluiu lentamente até alcançar a consistência, o mesmo era esperado da Renault. 2019 prometia um duro embate entre os franceses e britânicos (que usam motor Renault). Mas o que se viu não foi isso. Enquanto a McLaren manteve-se sempre capaz de chegar aos pontos, a equipe francesa oscilou entre grandes corridas e provas no fim do pelotão. Com os resultados desanimadores, fala-se inclusive de uma possível saída da F1 nos próximos anos.

Uma triste confirmação foi o naufrágio da Williams. A equipe de Grove saiu de anos ruins no início da década para figurar entre as protagonistas do grid entre 2014 e 2016. O lampejo de sucesso durou pouco e de 2017 para cá, o time de Frank Williams entrou em uma trajetória previsível de declínio que só o regulamento de 2021 parece poder evitar que se transforme em desaparecimento.

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