Na manhã deste sábado (10), o filme escolhido foi Infiltrado na Klan, do diretor Spike Lee. A estreia nas salas de cinema brasileiras está prevista apenas para o dia 22 de novembro, mas cerca de 80 assinantes da Gazeta do Povo puderam assisti-lo em primeira mão.

O filme é baseado na história real policial negro Ron Stallworth (John David Washington) que em 1976 conseguiu se infiltrar na organização supremacista Ku Klux Klan, do Colorado nos Estados Unidos, se comunicando de telefonemas com seus líderes.

Antes da sessão, Alessandra Micheviz e sua mãe Solange pegaram seus sacos de pipoca e contavam porque resolveram ir juntas ao cinema no sábado de manhã.  “Quando eu recebi a notificação do Clube Gazeta do Povo, vi que era a oportunidade de levar a mãe ao cinema porque é difícil de tirar ela de casa. Li sobre o filme e vi que promete ser muito bom”, disse Alessandra.

O crítico Marden Machado destacou o filme como uma das principais obras do “cinema engajado” do cineasta Spike Lee. “A trama do filme parece uma história meio absurda, mas é baseada em fatos reais e, infelizmente, com uma forte conexão com a história presente”.

Marden destacou também a homenagem de Lee ao cinema feito por cineastas negros nos anos 1970, um movimento que hoje chamamos de blaxploitation.  “Spike Lee usa a estética daqueles filmes, nos caracteres, cortes e nas cores saturadas da fotografia. Ele também usa uma série de referencias e em dado momento chega a dar uma aula sobre este período citando filmes, atores e diretores”.

O professor Renato Mocellin explicou que o ambiente de tensão racial nos Estados Unidos se fortaleceu após a guerra civil entre exército do Sul escravocrata e do Norte abolicionista que durou de 1861 a 1865. Com a vitória do Norte, houve a criação de três emendas constitucionais estadonidenses. Uma aboliu a escravidão, outra criou direitos iguais e cidadania para todos e a última deu aos negros o direito ao voto. “Infelizmente, ainda que a legislação estabeleça a igualdade como principio, ainda hoje não funciona assim. Mudar uma legislação é fácil, mudar a mentalidade das pessoas, muito difícil”, disse.

O professor destacou que o período entre as década de 1950 e 1970 foram fundamentais para a construção dos direitos civis dos negros americanos na vida real.  “Havia linhas diferentes entre os movimentos negros nesta luta por mais direitos e igualdade. Tinha um grupo pacifista e Martin Luther King era um dos líderes, e outros mais radicais, entre os quais os Panteras Negras. Cada um a seu modo, ajudou a moldar o ambiente que há hoje na sociedade americana”.

O casal cinéfilo Darice Zanardin e Marcelo Matos (foto acima) foram os últimos a sair da sessão. “Gosto muito do cinema do Spike Lee porque ele cumpre a função que o artista tem de expor o que não está tão visível para todos chamando atenção para questões sociais”, disse Darice. “A arte é transformadora e quem participou hoje saiu pensando sobre todas estas questões”, finalizou.

Já para Marcelo, a crítica que o filme levanta é muito válida. “Não é só no Brasi nem nos Estados Unidos, mas em vários lugares do mundo onde a questão do racismo está presente e precisa ser enfrentada”, disse.  “O diretor soube fazer isso fazendo um filme com cenas engraçadas e uma narrativa fluida, mas também contundente na critica social”.