Finalmente chegou o dia. Na quarta-feira passada (27), o Netflix lançou a mais ambiciosa ação de autopromoção já realizada em seus 22 anos de existência; provavelmente também a maior e mais cara em toda história do marketing.

Iniciada com o elogiado Roma, de Alfonso Cuarón, a busca pela legitimação de sua marca como produtora de cinema (e não de telefilmes) encontrou o Santo Graal em O irlandês, projeto sonhado por Martin Scorsese e Robert De Niro ao longo de duas décadas. 

Scorsese apertou o botão do pragmatismo e aceitou os US$ 159 milhões que nenhum outro estúdio estava disposto a pagar para financiar o filme. Ainda que antagonizando vozes como Spielberg e Almodóvar, defensores da ideia purista de que produtos para cinema e televisão são coisas bem distintas, tornou-se garoto propaganda de luxo para a causa do Netflix.    

Apesar disso, aconselhou a todos que não assistissem a seu filme – sim, é um filme – pelo celular; se não no cinema (onde foi lançado em curta temporada, de olho em premiações ao redor do mundo que colocam a projeção como pré-requisito para a inscrição), pelo menos em um Ipad com um tamanho de tela considerável.

Já antevendo a polêmica e tentando salvaguardar sua obra, chegou a dizer que os filmes de super-heróis no estilo atual da Marvel não são cinema, mas algo muito próximo de um parque de diversões temático (no que está coberto de razão). A virulência da reação foi tão grande que o experimentado cineasta viu-se na obrigação de retratar-se, lançando o velho “não foi bem isso que eu disse”.

Com quase três horas e meia de duração, O irlandês vem se juntar a Os bons companheiros e Cassino para formar não uma trilogia, mas um tríptico; um exercício de estilo e linguagem autoral que, articulado desta maneira, cria um painel muito esclarecedor do impacto do crime organizado na formação da identidade cultural dos EUA no século 20. 

Alguns aspectos são comuns aos três filmes: baseados em personagens e acontecimentos reais, cuja estrutura narrativa é orquestrada em torno das memórias de um protagonista narrador, seguem os acontecimentos obedecendo a uma mesma ordem cronológica.

Um momento de queda é o que inaugura cada história (um assassinato em Os bons companheiros, um atentado em Cassino e a preparação para uma morte em O irlandês). Daí, há um flashback mostrando como as coisas chegaram até ali, seguido pelo desvelar de tudo que surge como consequência.

Em O irlandês, o desafio é maior pela decisão de se contar a história via três linhas temporais em paralelo. Pela primeira vez, conhecemos na abertura a versão final e decadente do protagonista; neste caso, o matador da máfia Frank Sheeran (Robert De Niro). Já de cara sabemos como termina sua caminhada, sozinho e debilitado fisicamente na velhice; ao contrário dos outros filmes, onde esta revelação se dá apenas no epílogo. 

Ciceroneados pelas lembranças de Sheeran, acompanhamos uma viagem até Detroit para participar de uma cerimônia de casamento, em simultâneo a mais um flashback, no qual podemos testemunhar desde o inicio sua trajetória dentro do crime organizado e subsequente ascensão como sindicalista pelas mãos do controverso líder trabalhista Jimmy Hoffa (Al Pacino).

Os incontornáveis planos sequência continuam a todo vapor em quantidade, mas sem o tom operístico da magistral cena de Ray Liotta conduzindo uma deslumbrada Lorraine Bracco pelos bastidores do Copacabana, em Os bons companheiros. A intenção agora é outra, refletindo as duas principais características do temperamento do personagem de De Niro: contenção e efetividade.  

A obsessão pela reconstituição histórica a cargo da direção de arte é emocionante. Nada foi esquecido. Desde a placa do restaurante onde Hoffa espera sem saber pelos seus algozes até à caracterização de De Niro como o velho matador, reproduzida nos mínimos detalhes de uma foto do Sheeran real.

Igualmente tocante, a homenagem a dois antigos colaboradores já mortos prova que todo filme do diretor é uma declaração de princípios. Primeiro, a presença de um jovem Don Rickles no palco relembra o amigo de longa data que trabalhou em Cassino, no papel de gerente de salão em Las Vegas. E a ausência de créditos iniciais reverencia Saul Bass, o lendário realizador de aberturas que, com sua mulher Elaine, ajudou a moldar o espírito de filmes dirigidos por nomes como Hitchcock e Otto Preminger. Por ter assinado a abertura de Os bons companheiros e Cassino, com sua ausência, nada mais acertado do que optar pelo vácuo neste quesito em O irlandês.     

A violência, outra marca do trabalho de Scorsese, é modulada o tempo todo com a precisão de um afinador de pianos. Sempre insinuada, como uma cascavel à espreita no meio do mato, explode nos momentos em que Sheeran executa um serviço. O personagem justifica para si mesmo sua volatilidade moral porque entende-se ainda como um soldado do Exército, cumprindo sem questionamentos o mesmo tipo de ordem que lhe era dada durante a Segunda Guerra.

Usando um artifício aprendido com Eisenstein e aplicado conscientemente a partir de Gangues de Nova York, esta capacidade de manipular a impressão de violência alcança a completa maturidade. É tocante a maneira como Scorsese filma a morte de Hoffa, onde assistimos, mas não vemos o ato em si. Este único plano, seco e econômico, é um dos pontos altos de toda a sua filmografia.

Trata-se de um filme sobre lealdade e amizade mas, sobretudo, sobre o destino – e de como somos incapazes de evitá-lo. Ao decupar da maneira como foi feita toda a preparação para a morte de Hoffa (primeiro com o carro de De Niro chegando à casa do abate, depois com o Lincoln vermelho indo e vindo pelo mesmo caminho, cruzando a mesma ponte e dobrando na mesma curva), Scorsese logrou algo realmente notável.

Conseguiu reproduzir cinematograficamente como age o destino. Este conjunto de planos  repetidos sucessivamente profetizam a tragédia vindoura e são como o féretro que nunca pôde conduzir Hoffa ao túmulo.

Joe Pesci no papel do Don mafioso Russell Bufalino nos dá de presente o que será, provavelmente, sua última atuação no cinema. Fazia muitos anos que não trabalhava como ator e foi uma dificuldade convencê-lo a voltar ao batente. Completamente diferente de tudo o que já fez, é nome certo para uma indicação ao Oscar de coadjuvante. Ao lado de Al Pacino, é a azeitona da empada deliciosa que é O irlandês.

Já no final do filme, o personagem de De Niro filosofa sobre vida e morte e diz que prefere ser enterrado a ser cremado quando chegar sua hora. Para ele, a segunda opção parece mais definitiva do que a primeira, daí sua escolha. É o contrário deste O irlandês: ser veiculado pelo streaming do Netflix não faz com que seja menos definitivo do que se projetado nos cinemas.

Sobre o que é cinema ou televisão, a discussão certamente ganhará outros contornos a partir de agora. Talvez o argumento mais importante que emerge no debate seja finalmente a questão da linguagem – e não o corporativismo, a mídia ou o saudosismo. Só por isso O irlandês já nasce como um marco e uma necessidade.

*Alexis Parrot é diretor de TV, roteirista e jornalista. Escreve sobre televisão às terças-feiras para o Dom Total.

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

Facebook Comments