Thiago Pethit é um personagem complexo no cenário do rock independente do Brasil e que está crescendo e dominando seu espaço na música nacional. Começou sua carreira musical com seu EP Em Outro Lugar, de 2008. Para seu primeiro álbum Berlim, Texas, que o trouxe uma indicação no MTV VMB, o Video Music Brasil (antiga premiação da emissora), na categoria de Aposta MTV. 

Em 2012, Pethit lançou o álbum Estrela Decadente, que conseguiu fazer com que pudesse levar sua turnê para Paris. Seguindo em 2014, com o Rock ‘n’ Roll Sugar Darling. 

Os seus sons sempre foram característicos, levando toques do rock clássico mas dando sua interpretação atual. Com clipes que são extremamente bem produzidos, podendo ser confundidos com grandes filmes. 

Em seu quarto álbum de estúdio, lançado em março de 2019, Thiago Pethit retornou e decidiu trazer um novo lado para suas músicas. Mal dos Trópicos (Queda e Ascensão de Orfeu da Consolação) é marcado por letras poéticas que vagam pelas ruas de São Paulo, com toques de música clássica e a grande melancolia que está sentindo com a situação em que se encontra em “tempos escuros”. Com muitas influências da mitologia grega que complementam sua forma de se expressar. 

Seu show de lançamento ocorrerá amanhã (12) no Sesc Pinheiros, em São Paulo, às 21h. O evento contará com a participação especial do bloco Ilú Obá de Min e novas versões de suas músicas antigas. Os preços variam entre R$12,00, para credencial plena do Sesc, e R$40,00 a inteira. Para mais informações, clique aqui.

[EXITOÍNA] Em seus trabalhos anteriores, ouvimos uma grande influência do rock clássico. Mas em Mal dos Trópicos, você ousa com sons que remetem a música clássica. Qual foi a ideia por trás disso?

[PETHIT] Mal dos Trópicos é um disco em que as minhas intenções, pessoais e criativas, foram muito diferentes das trabalhadas anteriormente. Creio que essas intenções dizem também muito a respeito do momento em que eu gravei cada um destes discos.

O Brasil mudou muito de 2014 pra cá. Vejo um país mais melancólico, mais aterrorizado e paranoico também. Mal dos Trópicos é um reflexo disso, do país e do momento. 

A ideia de ter um repertório sonoro mais erudito veio da narrativa mítica das canções e deste Orfeu dos trópicos.Um jeito de evocar esse tom mais épico do disco, que ainda assim é bastante urbano e contemporâneo.

O conceito nasceu do que a princípio era uma necessidade pessoal de artista: eu queria fazer um trabalho que privilegiasse a palavra e a canção, a voz, mais do que a performance de show.

O resgate do mito de Orfeu, poeta e cantor que tinha o dom de encantar a todos nasceu desse sentimento. E com o tempo, o mito foi ganhando outros sentidos pra mim.

Conforme as canções foram tomando forma e as gravações e arranjos foram acontecendo, eu entendi que Orfeu é um mito que diz muito sobre este momento coletivo de luto e perdas. 

O mito de Orfeu já foi bastante trabalhado no imaginário da cultura brasileira: desde Vinicius de Moraes escreveu uma peça musical sobre isso, ambientada no Rio de Janeiro, até a poesia marginal de Roberto Piva. 

E depois tiveram muitas influências diferentes: desde a obra de Heitor Villa Lobos, passando por disco brasileiros da pós Tropicália, até standards de Jazz como Cry Me A River.

Uma espécie de pintura em movimento, uma mesa de um banquete abandonado. Desolação e barroquismo, frutos apodrecendo e sendo devorados por insetos e ratos. Taças de vinhos que são embebidas por fantasmas.

Em Orfeu, dirigido pela Camila Cornelsen, um drone passeia por São paulo e visita algumas janelas pela cidade enquanto aparecem ilustrações minhas inspiradas pela obra do Jean Cocteau. 

Mas sou fã também de artistas mais próximos e da minha geração, alguns até tenho sorte de serem amigos: Baco Exu, Letrux, Linn da Quebrada e Jup do Bairro e Ivana Wonder por exemplo, são ídolos pra mim.

Não foi tanto uma ideia, mas uma experiência real. Esses são os lugares que frequento. O bairro onde eu moro, as ruas e bares por onde circulo e onde histórias reais aconteceram. A cidade é um personagem importante na minha vida e música.

Eu vinha sonhando com isso desde que gravamos o disco. Queria que essa instrumentação final – a apoteose do disco que termina em samba – fosse simbolicamente relevante. Eu admiro demais a arte deste bloco. Os simbolismos e a força religiosa que elas contemplam musicalmente. Essas são as bacantes do meu disco. 

No Brasil de 2019 não é bom esperar por nada. Gostaria imensamente de passear com esta turnê por todas as cidades onde já estive e por outras que nem sei ainda o nome. O Brasil é imenso. 

A cultura tem sido profundamente subjugada por este novo governo e isso faz com que os recursos para artistas e produtores independentes sejam cada vez mais escassos. No que depender de mim, vou longe.