Duas pessoas deitadas na cama é uma cena que se repete em “Tudo o que Tivemos”. O filme mostra neste lugar de recolhimento e aconchego um par maduro, uma mãe dividindo o cobertor com a filha, um casal em crise, outro acordado no meio da noite por um telefonema urgente e uma filha que assume os cuidados da mãe doente.

A retomada desse lugar comum da intimidade é o mote escolhido por Elizabeth Chomko, em seu primeiro trabalho como diretora e roteirista, para tratar as forças que unem ou desagregam os membros de uma família, sem perder de vista as razões e desrazões de cada um.

Captar a flutuação dos afetos é uma obsessão no cinema e nas séries contemporâneos. Por causa das dificuldades de representá-la, costuma ser substituída por clichês psicológicos ou por exageros emocionais.

“Tudo o que Tivemos” enfrenta esse risco ao abordar um tema doloroso, o mal de Alzheimer, motivo suficiente para afastar o público que considera a sala de cinema apenas como um abrigo contra problemas.

O filme mostra as manifestações da doença no comportamento errático de Ruth, que teve uma vida libertária de mulher feminista e na velhice precisa que marido e filhos a assumam.

Em vez de se concentrar na deterioração mental da personagem, o que já foi feito com eficácia em “Longe Dela” (2006) e “Para Sempre Alice” (2014), aqui a atenção desloca-se para os efeitos da demência na família.

O conflito principal entre Burt, o pai, e os filhos, Bridget e Nick, gira em torno da decisão de internar a mãe numa clínica ou deixá-la aos cuidados do pai. Esta questão particular leva a outras, que dizem respeito não somente a cuidar de alguém doente, mas da instabilidade dos vínculos.

As múltiplas e imprevisíveis respostas de afeição e de irritação entre pais e filhos, irmãos ou casais são construídas em cenas fortes de discussão, recurso que poderia desabar com facilidade na gritaria e que, no entanto, a direção mantém sob o controle. Para isso, ela conta também com o trabalho preciso do elenco liderado por Hilary Swank, Michael Shannon e Robert Forster.

Fiel à tradição do filme de ator, “Tudo o que Tivemos” refuta a ideia pronta de que o cinema americano não comporta mais ficções adultas ou que só nas séries encontraremos a dose necessária de drama para nossa sobrevivência.

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