A diversidade da música brasileira uniu um momento histórico, na última sexta-feira (14), em Vitória, Espírito Santo. As tradições do samba e as nossas raízes negras foram protagonistas da noite, que valorizou as importantes origens da nossa mistura cultural. E ninguém melhor que os representantes dessas histórias para dar voz a tudo isso. Assim foi o show dedicado a Martinho da Vila, mestre sambista. Para homenagear um dos maiores músicos do país, se ergueu um encontro de gigantes, com o músico Tunico da Vila, filho de Martinho; Criolo, rapper e cantor; o tradicional Congo Capixaba e instrumentistas locais.

Essa foi mais uma edição do Projeto Spirito Samba, idealizado por Tunico em homenagem aos 80 anos de seu pai. É feito para acontecer principalmente fora do eixo Rio-São Paulo, no Espírito Santo, onde os costumes de origem afro despertaram uma conexão ancestral para pai e filho, sambistas e ativistas da questão racial. Desde janeiro, a cada mês, a sequência de shows traz artistas convidados. Entre eles, já vieram Mart’nália, Dudu Nobre, Xande de Pilares e o próprio Martinho.

Assim, o palco deu lugar a uma explosão artística. Dessa vez, composta pela autenticidade de Tunico, a sabedoria de Criolo, a essência do Congo Capixaba e as potencialidades dos instrumentistas que sintonizavam essa união. Cada músico, sambista, cantor e congueiro teve seu tempo de chegar, seu brilho próprio e seu lugar. Disso, se fez um encontro de muitas trocas:

Ao juntar uma infinidade de origens e ritmos tão distintos, aquele espetáculo revelava: a cena artística é feita pelas diferenças. Assim como declarou Tunico: “Não existe uma só verdade para a música”. Em um só espetáculo, o público vibrante experimentava samba, rap, salsa, afrobeat, ritmos angolanos e os tambores típicos do Espírito Santo.

Nessa mistura, até a canção francesa entrou na roda, quando Tunico interpretou a famosa Ne Me Quitte Pas, escrita nos anos 50 e regravada em diversas versões no mundo inteiro. Ali, melodias latinas e afro-brasileiras davam um novo tom para a composição, e transbordavam diversidade. De forma mágica a transcendental, toda a apresentação fazia surgir harmonia e conexão entre tantas culturas entrelaçadas, como narra Criolo:

“De algum jeito, a música e todas as expressões de arte fazem com que a gente fique juntos naquele momento. Tudo isso traz uma energia, e a gente se conecta com as pessoas. Com um abraço, um sorriso fraterno, ou mesmo chorando com o coração magoado.”

A banda de congo “Amores da Lua”, convidada do último show, é regida pelo Mestre Ricardo Sales, Mestre Rui Barbosa Sales e a Rainha do Congo Dona Celeusa Maria Alves Sales. Entre os músicos do projeto Spirito Samba, estão Sérgio Rotti no cavaquinho; Alexandre Barbatto no contrabaixo; Daniel Barreto no violão; Felipe Dias na bateria; Górgias Gomes na percussão; Marcos Oliveira no trombone; e Marcos Firmino no trompete.

“Todo artista precisa reverenciar a sua ancestralidade”, assim Tunico da Vila explica a razão do seu projeto em homenagem a seu pai, de quem ele recebeu o seu anel de bamba. Como Martinho da Vila representa boa parte da história da música brasileira e da valorização das origens afro, um tributo de seu filho para ele significa não só valorizar um artista memorável. Mas também exaltar uma infinidade de tradições e riquezas eternizadas como patrimônio cultural. Tudo isso é o que esse sambista, considerado um dos maiores do planeta, carrega em si e perpetua mundo a fora.

Com um arsenal de premiações, inclusive mais de um Grammy Latino, o legado de Martinho é eternizado por seus mais de 50 discos e 15 livros escritos. Seu papel como pioneiro e vanguardista é tão expressivo que foi o criador do gênero “partido-alto”, ligado aos batuques angolanos. Além da vida que se mistura com a trajetória da Unidos da Vila Isabel, para o qual Martinho compôs diversos sambas-enredo.

De tantas experiências ao longo dos 80 anos de vida e 50 de carreira, Martinho se fez um sábio contador de histórias e participante ativo em momentos mundialmente importantes. Nos anos 1990, lutou pelo fim do apartheid e pela liberdade de Nelson Mandela. Voltando um pouco mais ao passado, nos anos 1970, foi responsável por sensibilizar o Brasil sobre as guerras por independência na África, em especial na Angola. Assim, ergueu diversos projetos inéditos de intercâmbio entre artistas brasileiros e angolanos, resgatando os laços entre as duas culturas. Tal como foi o projeto Kalunga, em que desembarcou no continente para fazer shows junto com grandes nomes como Clara Nunes, Chico Buarque, Dorival Caymmi e Dona Ivone Lara.

Como um guardião da cultura negra milenar no Brasil, tornando-se inclusive embaixador da Angola, Martinho sempre revelou e celebrou diversas influências africanas que construíram fortemente a identidade brasileira. Tal como o samba, que tem como origem o massemba, tradicional de Angola.

“O Brasil é, em larga medida, filho de Angola. O contrário também é verdade. Os dois países construíram-se em parelho, ligados por uma terrível iniquidade, o tráfico de escravos, mas também por séculos de trocas felizes”, escreveu o jornalista angolano José Eduardo Agualusa, em sua coluna no jornal O Globo, citando Martinho entre um dos “artistas generosos e solidários” que visitaram o país. 

Com o legado de seu pai, Tunico da Vila cresceu guiado pelo orgulho e identidade afro. Desde criança, para além dos tradicionais heróis brancos das histórias infantis, ele também foi criado com exemplos de protagonismo preto. Ainda na infância, começou a frequentar casas de Candomblé, onde há 30 anos é ogã de atabaque e canto, um cargo responsável pelos instrumentos de percussão (atabaques) e pelos cantos que celebram as entidades sagradas. Logo em seus primeiros contatos com os terreiros, as batidas dos tambores lhe soaram como familiares. Lembravam os ritmos entoados por seu pai, que também reúne elementos religiosos de matriz africana. A relação com a música negra religiosa e a criação na escola de samba levaram Tunico a ser percussionista de Martinho da Vila, por um bom tempo. Hoje ele faz parte da ala de compositores da Unidos de Vila, para a qual já conquistou o campeonato do carnaval carioca com suas composições.

Construindo seu legado próprio de luta por igualdade racial, Tunico representa a cultura orixá e valoriza as diversas expressões do povo preto nos palcos, especialmente no Projeto Spirito Samba. E com isso, dedica-se a combater o preconceito, o racismo e a intolerância religiosa.

E foram justamente essas raízes negras que guiaram pai e filho sambistas até o Espírito Santo, terra onde hoje reside Tunico, acreditando ter encontrado aqui a sua missão e seu território ancestral. Ele, que nasceu no Rio de Janeiro, se considera um “carioxaba”.Os ritmos e as danças tradicionais angolanas, que compõem o surgimento do samba, também são a origem do Congo Capixaba. Tudo isso aconteceu pela contribuição da etnia bantu, nação de Angola, de onde viam boa parte das pessoas escravizadas no Espírito Santo. O congo tornou-se tradição religiosa com importante papel no folclore do estado. E assim, também se esbarrou e se conectou fortemente com a música de Martinho da Vila, que fez o gênero musical ser revelado e apreciado nacionalmente. Apaixonado pela cultura ancestral que reencontrou no estado, o sambista criou laços com os artistas locais e gravou “Madalena do Jucu”, há quase 30 anos atrás, em que canta ao som das toadas das casacas e tambores.

Assim, hoje Tunico celebra o legado de seu pai juntamente com a valorização das tradições afro que florescem desse estado. Por isso, a missão do sambista também se dá fortemente em valorizar a própria cena local, movimentando o meio artístico fora do eixo Rio-São Paulo.

“O estado é rico culturalmente. O congo é um patrimônio daqui,e é angolano de raiz. As pessoas daqui tem essa joia e potência na mão.  Precisamos ter espaços para que todos possam conhecer o símbolo máximo da identidade capixaba”, reconhece ele.

Além de reverenciar essas diversas tradições, Tunico da Vila usa suas inúmeras referências e repertórios para espalhar saberes entre os músicos. Para ele, a troca coletiva foi sempre presente e essencial. Cresceu em meio às rodas de seu pai com artistas lendários como Clara Nunes, Candeia, Beth Carvalho e Alcione. Por isso, o projeto Spirito Samba também prioriza o encontro em todos os sentidos: com as negras; entre artistas locais e de destaque nacional; entre diversos gêneros; entre o público e as várias histórias contadas com a música.

E esse intercâmbio cultural se potencializa mais ainda, para ele, ao reunir renomados sambistas nacionais com os artistas capixabas de sua banda, que também são fruto de uma união diversificada. Para começar o projeto, Tunico percorreu rodas de samba em busca de músicos locais. Seu principal critério de seleção era a sintonia e conexão que sentia ao vê-los tocando.Assim, a composição da banda vai desde aprendizes com carreiras recém iniciadas até músicos veteranos. Cada instrumentista já percorreu distintos estilos musicais. Desprendidos de um só gênero, eles se aventuram em pesquisas e experimentações que fazem dos shows essa autêntica mistura.

Daniel Barreto, violinista, já passou pelo heavy metal em bandas autorais e independentes, mas também tem a herança sambista de sua mãe, a cantora Dorkas Nunes. Dois dos integrantes, Sérgio Rotti, do cavaquinho, e Górgias Gomes, da percussão, cresceram dentro de escolas de samba tradicionais do estado. No trombone e no trompete, respectivamente, os veteranos Marcos Oliveira e Marcos Firmino acrescentam ao projeto suas influências do jazz, que trazem da Banda da Polícia Militar. Alexandre Barbatto, do contrabaixo, considera o projeto um contato vivo com o legado da música brasileira. Ele fala sobre os aprendizados preciosos que toda a banda recebe dos artistas convidados, nos ensaios ou mesmo nas conversas de boteco. Tal como foi a vinda do sambista Monarco da Portela, por meio do projeto, que compartilhou suas memórias do berço do carnaval, no Rio de Janeiro, nos anos 1940.

O jovem baterista Felipe Dias, que estreou no projeto nesse último show com Criolo, foi escolhido pela semelhança que Tunico enxergou entre o trabalho dele e de um dos seus mestres, o baterista Paulinho Black. E ao comparar o aprendiz ao seu mestre, o sambista oportunizava para Felipe uma importante conquista: “Estou realizando o sonho de tocar com artistas nacionais. A cadência, a musicalidade e o samba bem orquestrado do Martinho da Vila sempre me encantaram. Sempre foi uma das minhas grandes inspirações”, explica o músico, que cresceu em um bairro periférico da capital capixaba e iniciou sua paixão pela arte tocando na igreja, desde os 7 anos de idade.

Convidado da noite pela sinestesia sonora reconhecida por Tunico, Criolo multiplica no palco a energia, a serenidade e afeto, sensações normalmente provocadas em suas composições reflexivas e melodias profundas. Como ele mesmo disse há mais de dez anos, em sua famosa Ainda há tempo: “Que a minha música possa te levar amor”. Assim, ao longo de quase 30 anos de carreira, ele se dedica a um propósito maior:

E de fato, a sensibilidade e intensidade com que ele desagua seus versos deixam bem claro: sua arte faz da existência muito mais do que sobrevivência. Transforma a vida em resistência, em brilho e potência. Nos lembra que somos seres humanos, como diz Caetano: “gente é para brilhar, não para morrer de fome”, que poderia ser um belo diálogo com o verso do próprio Criolo: “cada coração é um universo”. Simplesmente ao lembrar o quando cada ser é especial e incrível, ele reivindica a igualdade, a plenitude e a justiça para todos. E assim, sua música de alma alcança cada vez mais multidões pelo mundo.

Tal como é o intercâmbio proporcionado pelo projeto Spirito Samba, as criações de Criolo também valoriza a união das diferenças. Assim como fez no palco com Tunico da Vila e os músicos capixabas, sua trajetória inteira sempre se fez pela mistura e pelas trocas, essenciais em sua arte. Além da diversidade de referências e ritmos, ele proporciona ricos encontros culturais. Um exemplo foi a criação da Rinha de MC’s, uma das festas mais autênticas do hip hop, dedicada às batalhas de improvisação que levam oportunidades para diversos jovens de periferia. O trabalho coletivo também sempre guiou boa parte de suas produções, tal como o disco Convoque Seu Buda, que teve 80% de coautorias entre todas as faixas lançadas. Isso também explica a troca de afeto que ele faz questão de transmitir para todos ao seu redor, como conta:

Desde que despontou na cena nacional, sete anos atrás, Criolo espalhou sua mensagem por mais de onze países e conquistou mais de 15 prêmios. Toda essa trajetória o traz até o Espírito Santo, hoje, por meio de sua atual carreira no samba. Definida por ele como a realização de um sonho antigo. Seu primeiro disco do gênero foi lançado no ano passado e logo trouxe a conquista Prêmio da Música Brasileira 2018. Hoje, a ginga sambista é o que sintoniza sua energia nos palcos. Ao mesmo tempo em que reverencia as tradições ancestrais dos bambas, o que faz com que sua participação nesse projeto seja tão significativa:

“Para mim é muito importante receber o convite do Tunico para estar aqui, porque ele vem de uma família musical, que tem história na cultura brasileira. É uma honra, é muito especial mesmo. Encontrei com músicos aqui que são felizes no palco, amam a música.”