Na segunda edição, o Vai m’à Banda percorreu, no sábado, alguns dos lugares mais típicos de Guimarães. Neste festival, os sons de Legendary Tigerman, de Toulouse, de Tó Trips e João Doce e ainda de Mathilda foram tão protagonistas como as tascas percorridas na cidade e na Penha e o vinho e a comida que eram servidos nesses lugares.

Já bem depois da meia-noite, The Legendary Tigerman encerrava de joelhos uma actuação repleta de electricidade, numa prece pela salvação do rock n’roll. Nessa última canção, Fix rock n’roll, do seu mais recente trabalho, Misfit (2018), o público respondeu aos apelos do artista até ao último som que ecoou do palco ladeado por algumas das fachadas do Largo do Trovador, em Guimarães. Foi o encerramento de um dia com outros protagonistas: o vinho verde nas malgas da Tasca Expresso, acompanhado pela voz suave de Mathilda, os sons tribais de Tó Trips e João Doce, junto aos penedos da Adega do Ermitão, na Penha, e os Toulouse, no seu último concerto por “tempo indeterminado”.

No final, Miguel de Oliveira, da promotora do festival, a Revolve, estava claramente satisfeito com a segunda edição do Vai m’à Banda. “Foi muito melhor e maior do que o que estávamos à espera. À noite estavam pelo menos duas mil pessoas. A edição deste ano consolidou o festival e o apelo destes espaços tão genuínos que lhe marcam o carácter”, reiterou o programador musical.

Gratuito e itinerante, este Vai m’à Banda seguiu o mesmo roteiro da edição transacta. Pouco depois da hora do almoço, já uma dúzia de pessoas se acomodava na sombra que pairava sobre a esplanada da Tasca Expresso. Implantada num dos edifícios mais antigos do Largo da República do Brasil, as suas portas vermelhas, de madeira, abrem-se para um espaço cristalizado no tempo. Do tecto azul celeste, pendem dezenas de canecas e de jarros em inox e barro, com ou sem rostos esculpidos, mas é ao balcão que, como seria de esperar, se desenrola o negócio, com o verde, tinto ou branco, que escorre das garrafas para as malgas.

Após uns momentos de ensaio concedidos ao seu ukulele, à sua guitarra eléctrica e à sua voz suave, Mathilda encontrou uma plateia superior a uma centena de pessoas, quando começou a sua actuação às 15h30, ao lado de Gobi Bear, na guitarra acústica. Com os seus tons agudos e serenos, a artista vimaranense moldou o ambiente ali vivido durante meia hora.

Mathilda — ou Mafalda Costa, o seu verdadeiro nome — tem dado alguns concertos ao longo deste ano, após ter lançado o primeiro single, Infinite lapse, em Novembro de 2017, e de ter participado na final do Festival Termómetro, em Lisboa, em Janeiro último. Em conversa com o PÚBLICO, a cantora enalteceu o festival por levar música aos sítios onde ela normalmente não existe. “Esta Tasca Expresso sempre me passou ao lado até ao ano passado, quando vim assistir [ao festival], e vivi aqui a vida inteira”, disse. Prestes a rumar a Londres, para estudar jornalismo, Mathilda prometeu, contudo, o lançamento de um novo trabalho, com algum do material já apresentado no concerto. Mas não será ainda em 2018.

Durante o concerto, muitos dos presentes movimentavam-se lentamente entre a tasca e a esplanada, para pegar na sua malga. Um deles, Miguel Oliveira, rumou de Vizela a Guimarães para usufruir da música de uma maneira mais informal, num cenário que valoriza ainda mais o festival. “Já são sítios raros. A Adega do Ermitão, a seguir, é um sítio como já não existe neste país e onde toda a gente devia ir”, frisou. Foi o que fez quem viu Mathilda. Mal soou o último acorde, começou a debandada, rumo ao teleférico e à Penha.

O Monte de Santa Catarina, encimado pelo santuário da Penha, é um aglomerado de penedos revestidos de vegetação e de árvores, de onde se contempla Guimarães. Junto a uma dessas formações rochosas, a Adega do Ermitão oferece vinho, também nas tradicionais malgas (tigelas). Para lá chegarem os clientes têm de percorrer uma passagem muito estreita entre dois penedos. Ao lado, uma estrutura muito simples alberga as panelas e o forno a lenha para a comida – bolos de carne ou de sardinhas e caldo verde, sobretudo. Esta forma de trabalhar mantém-se, pelo menos, há 50 anos, diz o actual proprietário, Fernando Leite Monteiro. “O meu pai estava aqui há 50 anos a explorar isto, depois entregou-me a mim. Estou aqui desde criança. Com a música, isto tornou-se mais conhecido e vem mais gente de fora de Guimarães”, acrescenta.

Nesta edição a tasca serviu de cenário à guitarra de Tó Trips (Dead Combo) e à percussão de João Doce (Wraygunn). O som do duo, afirma ao PÚBLICO João Doce (percussão), transporta o ouvinte para “diferentes latitudes”, com registos “mais ou menos tribais”, influenciados pelas músicas africana, latina e tradicional portuguesa. No Ermitão, onde antes da sua chegada muitos faziam fila para comerem e beberem, os dois músicos tentaram expressar essa amálgama de influências e de ritmos presente em Sumba, álbum de 2016.

A disposição do público alterou-se mal soaram as primeiras notas da guitarra acústica de Tó Trips. O caos deu lugar à contemplação nos momentos mais calmos e à colaboração nos mais dinâmicos. Ao início receosos de que o público não se mostrasse disponível para os “momentos mais intimistas”, no fim os dois músicos mostraram-se satisfeitos com os 50 minutos que tinham oferecido à plateia. “O pessoal chegou cá acima, foi para as filas, para comer e beber, mas rapidamente se focou no concerto. Foi um público muito disponível”, salientou o percussionista.

Residente em Inglaterra, João Soares aproveitou o regresso a Guimarães, cidade natal, para voltar a um lugar de que gosta, e agora com um “bom cartaz”. “Com música, é perfeito. Acompanho o Tó Trips e gostei do concerto”, disse. Ao seu lado, Teresa Fernandes, uma lisboeta a morar no Porto, aproveitou para visitar a Penha pela primeira vez, num cenário de “caos tradicional”, no qual conviviam “diferentes classes, diferentes pessoas, diferentes línguas, diferentes estilos”.

Havia realmente gente a falar diferentes línguas. Clare Picken nasceu em Bournemouth, na costa sul de Inglaterra, mas vive em Guimarães há mais de 20 anos. Habituada a estar em concertos, repetiu a presença no Vai m’à Banda, desta feita com a companhia da amiga Fran Seftel, sul-africana de Joanesburgo, que vive em Famalicão há 26 anos. “Toda a experiência é fantástica. Já tinha visto os Toulouse e o Legendary Tigerman, na semana passada. Gosto de tudo o que junte as pessoas, seja a ouvir música, a comer, a beber, a socializar”, diz Clare.

Com o sol a pôr-se, o centro de gravidade do Vai m’à Banda deslocou-se para o Largo do Trovador. As tascas de serviço eram a Taberna Trovador e a Tio Júlio. O registo era, porém, mais convencional, com a cerveja a sobressair. O palco também o era, com os seus jogos de luz e o seu sistema de som.

Prestes a interromper a carreira, os Toulouse arrancaram às 22h para o último concerto da sua primeira vida. Formado em Guimarães há quatro anos o quarteto fez da harmonia entre as guitarras e a voz de João Silvestre o seu som de marca, expresso no único álbum que até agora editaram, Yuhng (2016). Com uma intensidade crescente em palco, estes jovens entre os 22 e os 25 anos acabaram o concerto como se não houvesse amanhã. No final, o baterista, Francisco Novais, admitiu que por ser o último nos próximos tempos, teve “uma carga mais forte”: “Estávamos a tocar na nossa casa, com as pessoas que sempre nos acompanharam, num evento que até ajudei a organizar. Acaba por ser mais fácil.”

No fim, chegou ao palco The Legendary Tigerman, e o seu grito pelo rock. Numa actuação evocativa da viagem que fez pelos Estados Unidos, inspiração para o seu último álbum e para a curta-metragem Fade into nothing, Paulo Furtado reafirmou um estilo que tem marcado uma carreira de quase 20 anos.

Com os riffs da sua guitarra, em constante diálogo com o saxofone de João Cabrita, com o baixo de Filipe Rocha e com a bateria de Paulo Segadães, The Legendary Tigerman gerou uma corrente de energia que contagiou o público até ao fim. Ao PÚBLICO, o artista reconheceu que a plateia acompanhou “uma viagem em que ninguém era obrigado a entrar” e em que as coisas “não são programadas de todo”. Esta ideia de viagem está bem presente na vida artística de Paulo Furtado, marcada por “alguma sorte” mas também por “muita luta e integridade”, diz. “É uma viagem pela qual estou muito grato, porque sempre pude fazer o que gosto e manter-me independente.”

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