No cinema, tomates, carros, camas, refrigeradores e até pneus já se transformaram em objetos assassinos que perseguem seus proprietários. Agora é a vez de um vestido ser assombrado e perseguir os incautos consumidores de uma loja de departamentos que mais parece uma seita secreta neopagã. Uma loja/seita promovida por um hipnótico filme publicitário na TV que convida os telespectadores à celebração do consumo da Moda. Essa sinopse sugere mais um filme de terror trash. Ao contrário, “In Fabric” (2018) nos oferece uma narrativa estranha, ao mesmo tempo non sense e meta-simbólica – uma paródia em humor negro da auto-imagem que a indústria da moda faz de si mesma. Como uma atividade profana que aspira ao Divino e ao Sagrado. “In Fabric” também revela o porquê dessa recorrência de objetos inanimados assassinos no cinema: a nossa relação fetichista com as mercadorias numa sociedade em que as coisas ganham qualidades humanas enquanto as pessoas viram coisas. Filme sugerido pelo nosso colaborador Felipe Resende.

O cinema já conta com uma extensa lista de objetos assassinos, psicóticos, vingativos, que querem acertar as contas seja com uma vítima pré-determinada, seja com a própria espécie humana. Tomates (O Ataque dos Tomates Assassinos, 1978) , bonecos (a franquia do boneco Chucky, por exemplo), camas (Death Bed, 1977), refrigeradores (Attack of the Killer Refrigerator, 1990), camisinhas (Killer Condom, 1996) e até pneus (Rubber, 2010 – clique aqui).

Só faltava um vestido assassino. E agora temos In Fabric (2018), uma estonteante, estranha e retrô história de terror. Uma absurda delícia sangrenta, combinando terror gore, humor negro e uma cínica paródia das lojas de varejo que criam a ilusão de vender “alta moda exclusiva” para as massas – o “exclusivo” disponível para qualquer um a preços módicos.

In Fabric, um conto de fadas adulto do escritor/diretor britânico Peter Strickland (Berberian Sound Studios), explora uma interessante crítica: o papel da publicidade é nos convencer a pensar que somos mais espertos que a publicidade – nos fazer imaginar que somos inteligentes demais para sermos enganados por uma simples bajulação de um vendedor ou um simples catálogo de roupas de uma loja.

Mas In Fabric trata de um tema mais profundo, que em última instância motiva cada um dos filmes listados acima sobre objetos inanimados que matam: o aspecto mágico (totêmico) do capitalismo e da promoção do consumo – as mercadorias adquirem qualidades humanas e os homens se transformam em coisas. Para deixarem de ser “coisas” têm que adquirir as mercadorias que passarão suas qualidades humanas ao comprador.

Assim como nas sociedades clânicas nas quais o totem tinha o papel mágico de transmitir a força, inteligência e coragem de determinados animais para os membros de um clã.

Para a publicidade um produto tem que ser vendido não pela sua utilidade, mas por uma crença fetichista de que ele tem um poder mágico de transformação da vida. Devem-se adquirir qualidades humanas que deveriam surgir de relações humanas reais e não de uma relação mercantil de compra e venda.

Magicamente você irá adquirir qualidades humanas contidas numa mercadoria. No modo de vida consumista temos uma sociedade fetichizada, ou seja, as mercadorias é que começam a dar o porquê das relações humanas. Ocorre uma inversão: os homens se relacionam porque existem mercadorias entre si e não por uma razão criada pelas próprias pessoas.

Portanto não é surpreendente a recorrência de objetos inanimados assassinos no cinema: de repente as coisas podem ganhar vida – numa sociedade em que as pessoas são tão dependentes de objetos para a vida ter algum sentido, cuidado! Os objetos podem se cansar e se vingar da humanidade que as explora.

Um comercial de TV, de uma loja de departamentos, hipnótico, misterioso, com uma trilha sonora eletrônica com modelos e uma estética com atmosfera dos anos 1970-80, atrai (na verdade, convoca) consumidores para um evento de compras de inverno culturalmente obrigatório – alguma coisa parecida com Black Friday.

Descrito como um vestido “vermelho arterial”, ele se destaca como uma reminiscência dos anos 80: mangas compridas, na altura dos joelhos, um decote modesto e, de um lado da cintura um misterioso botão de rosa negra aguardando com elegância o momento certo para atacar.

No catálogo da loja o vestido chamado de “Ambassadorial” é descrito de forma hiperbólica: “corpo sensual, cativante, olhares à luz de velas e conversas sobre canapés”.

Sua primeira compradora é uma caixa de banco chamada Sheila (Marianne Jean-Baptiste), mãe recém-divorciada de 50 anos precisando de uma roupa romântica para um encontro agenciado em através de um anúncio de corações solitários em um jornal. Sheila equilibra a sua vida entre um trabalho entediante e a sua casa, cuidando do seu filho Vince (Jaygann Ayeh), estudante de arte que mora no seu quarto com sua namorada mais velha, desocupada e exploradora Gween (Gwendoline Christie).

O local da compra parece mais do que uma butique: há uma atmosfera ritualística pagã, como algum tipo de sociedade secreta da moda em que consumidores são tratados como iniciados e as vendedoras parecem sacerdotisas vestidas com roupas negras em estilo gótico-vitoriano… e o gerente, um soturno sumo-sacerdote herético.

E antes de abrir as portas, os manequins são preparados em uma cerimônia no qual são banhados ritualisticamente com sangue. Enquanto, voyeurísticamente, o sumo-sacerdote alcança o orgasmo… nem o próprio Aleister Crowley imaginaria tal cena…

Em pouco tempo Sheila suspeita que há algo errado com aquele vestido. Naturalmente, ele é assombrado (a última modelo que o vestiu morreu tragicamente), assassino, indestrutível – destrói corpos, máquinas de lavar roupa, carros, é implacável. Em várias cenas o vestido flutua, paira como se observasse suas vítimas dormindo à noite.

Essa é a primeira metade do filme. Na segunda acompanhamos um técnico de máquinas de lavar roupas chamado Reg (Leo Bill) em sua festa de despedida de solteiro em um bar. Seus amigos obrigam Reg a cumprir um trote de despedida: vestir o fatídico vestido para embebedar-se até cair.

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